por Paloma Denaro
A SELVA parabeniza o aluno Rodrigo Alfaia e sua esposa Patrícia Alfaia, pela conclusão da Trans-Portugal, uma dura e emocionante prova que corta o país europeu. Abaixo o relato vibrante e verdadeiro do casal. Que INCRÍVEL! Parabéns aos dois. A tarefa não parece ter sido nada, mas nada fácil mesmo.
A Trans-Portugal é uma prova de MTB com 1150 km de extensão, que cruza Portugal de Norte a Sul, beira a Espanha e chega ao ponto mais próximo das Américas, chamado Sagres. A prova é composta por nove etapas de 100 K a 160 K por dia, com altimetria de 2000 m a 3900m por dia. Passamos por muitos vilarejos e aldeias, trilhas, lama, areia, asfalto, barro, enfim, tem um pouco de tudo.
É uma prova que une o perrengue de todo dia (chegamos a ficar 12h em cima da bike, com temperaturas variando de 4º C a 35º C) ao luxo de hotéis 4 e 5 estrelas. Não tem coisa melhor do que sofrer o dia todo e, no fim do dia encontrar sua mala no quarto de um hotel de altíssimo luxo, tomar um banho quente e, às vezes, até mesmo hidromassagem. 
Esta prova tem algo diferente: você tem que ser autossuficiente (levar sua própria comida e bebida) e é 100% feita usando GPS. Ninguém está lá para te mostrar o caminho. É navegação pura em um mapa topográfico muito bem preparado, por sinal.
Patrícia e eu treinamos uns quatro meses para esta prova e com certeza os treinamentos específicos passados pelo prof. Caco foram essenciais para garantir a sobrevivência. No primeiro dia de prova, fazia frio e chuva; o terreno ficou pesado e havia trechos de reta em que não passávamos de 10 km/h em por causa da areia molhada e da lama. Ao final do primeiro dia percebi que a encrenca estava apenas começando…
No segundo dia você sente a perna pesada, já um certo desconforto no selim, mas dá pra sobreviver. Fizemos um downhill técnico e maravilhoso (nunca vou me esquecer do abismo ao lado!). O ponto crítico era que o primeiro colocado era ninguém menos que um atleta olímpico (Vitor Gamito) que fazia a prova num ritmo insano e apertava o horário de corte, fazendo com que a gente tivesse que acelerar. No segundo dia chegamos a poucos segundos do corte.
O terceiro dia foi o “casca grossa”. Tínhamos que subir a temida Serra da Estrela, a serra mais alta de Portugal. Graças às dicas do nosso amigo portuga João Marinho, compramos luvas novas, uma proteção contra o vento para os pés, segunda pele etc. Subimos bastante, com muito, mas muito vento contra, chuva e frio. Boa parte desta subida foi push bike, pois tinha muita lama e era impossível de pedalar.
Quando chegamos à descida da serra, recebemos a má notícia: fomos cortados. O próximo PC já havia fechado e não nos deixariam continuar a etapa. Tivemos que entrar no carro da organização e assistimos os guerreiros chegarem do downhill da segunda serra congelados, pois ficavam 10 K descendo naquela friaca e o corpo esfriava. Realmente vimos o pessoal passando mal de frio. Mas o hotel que nos aguardava em Unhais da Serra era inesquecível.
Enfim, continuamos a prova nos demais dias já sabendo que a camisa de FINISHER não era para nosso bico, mas o importante era se divertir. No quinto ou sexto dia, meu joelho já gritava comigo pedindo para parar. Houve dias em que disse: “OK, vou te dar um descanso”. Continuei só com a perna esquerda por muitos e muitos quilômetros. Aquele treino na bolinha da USP é fichinha hoje. Eu já estava apelando para a medicina: gelo, anti-inflamatório e analgésico. Apenas ganhava um pouco mais de tempo, o joelho realmente não deixava a perna dar nem mais uma volta no pedal. Tive que abortar missão um dia e ir de carro para o próximo hotel, pois não estava mais apto a pedalar. Patrícia, no entanto, a Sra. Determinação não quis saber. Mandou brasa nos 165K daquele dia. Ela é realmente uma guerreira!
Com um dia muito estressante na piscina e muito gelo, me recuperei um pouco e deu para continuar a prova e chegar a Sagres. Apesar de não ter feito a prova inteira, a viagem foi marcante e fizemos vários amigos. Parecia uma grande família: mais de 60 atletas pedalando, jantando, tomando café da manhã juntos e contando histórias e piadas a semana toda. Foi demais! Não me canso de ver os vídeos e fotos desta prova.
Dá para escrever um livro com tantas histórias (o selim personalité que um tiozão inventou para aguentar as assaduras, as quebras de corrente, câmbio e pedal, o japa que não falava inglês, mas insistia em se comunicar com todos etc.)
Agora é só arrumar o joelho e colocar um novo objetivo, afinal peguei gosto por grandes desafios.
Abraço
Rodrigo e Patricia Alfaia.





