Filipe Jeronimo, atleta Selva Aventura, relata como foi correr com Edu, deficiente visual, na primeira etapa 2012 do Haka

Por Filipe Benato Jeronimo
Equipe – Ratos do Mato/Grupo Terra – Selva Aventura
A abertura do circuito 2012 do Haka, dia 3 de março em Ribeirão Pires, foi muito especial para mim, pois tive a oportunidade de fazer dupla com um parceiro com uma característica incomum nos atletas de corrida de aventura: ele é deficiente visual.
O Edu é um atleta experiente e muito bem preparado fisicamente. Começou nas corridas de aventura há cinco anos, através da equipe do Grupo Terra, ONG cujo objetivo é a inclusão social de pessoas com deficiência visual. Eu já havia corrido com ele (e com o Cris, outro atleta com DV) algumas etapas do Camp, mas essa prova tinha um sabor especial, pois essa seria a primeira vez que correríamos em dupla, sem nenhum suporte.
Com o dia da prova se aproximando, o frio na barriga ia crescendo. Além das preocupações comuns em todas as equipes, como logística, alimentação, hidratação e navegação, eu tinha a grande responsabilidade de estar 100% do tempo atento aos passos do meu companheiro, para evitar uma queda ou qualquer tipo de lesão.
Logo antes da prova, acordamos que o nosso objetivo seria “ir no limite” do nosso preparo físico (na verdade do meu preparo – pessoal da Selva, prometo que me dedicarei mais aos treinos!), considerando as condições do terreno, evitando ao máximo perder tempo nas transições e conferindo sempre o mapa.
A largada foi de bike, às 9h30 da manhã. Partimos com nossa bike para duas pessoas, conhecida como Tandem, cuja forma de dirigir e o equilíbrio são bem diferentes das bikes normais, com vantagens e desvantagens. Vimos a grande vantagem logo no começo da prova: no asfalto, ela é bem rápida. Com duas pessoas pedalando juntas, sendo que uma está no vácuo da outra, conseguimos andar mais rápido que muitas das outras equipes. Mas logo apareceram as desvantagens: como a bike é grandona (imagine dirigir um ônibus bi-articulado!), fica bem mais difícil fazer curvas, desviar dos buracos e frear, portanto sofremos um pouco no single track e nos down hills.
Após 20 km de bike, partimos para o primeiro trecho de trekking, com cerca de 6 km com parada para um rapel. Em geral, o trekking é a parte mais desgastante para a nossa equipe, pois requer atenção constante. Para o deficiente visual, o maior desafio é andar em terrenos muito irregulares, como costeiras, leitos de rios e trilhas muito fechadas, locais onde cada passo deve ser orientado. … É aí também que a experiência do deficiente visual faz diferença. Nesses trechos, o deficiente visual vai segurando no braço do guia e sentindo o terreno, se está passando, por exemplo, por algum degrau ou uma descida inclinada. O guia precisa narrar constantemente qualquer obstáculo, como pedras e troncos no chão ou até mesmo galhos de árvore perto da cabeça ou ombros.
Analisando o mapa já sabíamos que as condições do terreno no trekking eram boas, sendo a maior parte em estradas pavimentadas, portanto não teríamos muita desvantagem em relação às outras equipes. A adaptação e experiência do Edu são impressionantes. Nesses trechos, ao invés dele segurar no meu braço, corremos com uma corda de uns 30 cm amarrada nos nossos pulsos. Minha única preocupação era deixá-lo a uma distância segura da calçada, desviar dos buracos e narrar as lombadas (confesso que esqueci de falar da primeira – foi mal Edu!! – mas ele deu apenas uma desequilibrada).
Acabado o primeiro trekking, partimos para 7 km de remo, modalidade onde brigamos de igual para igual com as outras equipes, e mais 3 km de corrida no asfalto, até a linha de chegada. Finalizamos os 35 km de prova em 4h50, na 14a posição da categoria sport dupla masculina, contra 35 equipes. Durante toda a prova, foram também marcantes as palavras de apoio das equipes que cruzávamos. Valeu, galera!
Para mim, uma das coisas mais importantes desse tipo de experiência com um cara como o Edu é o exemplo de adaptação e superação. Todos nós temos deficiências e dificuldades, mas só depende de nós fazer com que isso não seja uma barreira para atingir nossos objetivos.
Valeu Edu!